terça-feira, 26 de agosto de 2008

Festejado Padroeiro da Baixada de Campos dos Goytacazes


Orávio de Campos
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RESUMO - Santo Amaro da Baixada Campista é a mais importante e mística entidade espiritual da região canavieira e pastoril do município de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro. E pelos milagres consagrados, guarda importante acervo de ex-votos, embora esta característica seja visível nos estados nordestinos, apesar de sua provável universalidade - segundo assinala o pesquisador Severino Alves de Lucena Filho, da Federal da Paraíba.
Anualmente, em 15 de janeiro, milhares de romeiros comparecem à festa do padroeiro, no distrito com o seu nome, situado a 40 quilômetros da cidade, de onde, a maioria, à guisa de pagar suas promessas, cobre o percurso a pé mas visando chegar antes do levantamento do mastro da bandeira e do encerramento das novenas.
As festas duram cinco dias e, durante este tempo, além das atividades religiosas, a parte profana revela a participação, cada vez mais ativa, da indústria dos milagres. São pessoas vendendo velas, fitas, imagens, reproduções em cera do corpo humano, fotografias com lembranças do santo. Muitos ex-votos são colocados na famosa “Sala dos milagres”, não faltando a encenação da cavalhada - eterna luta entre mouros e cristãos, costume trazido pelos primeiros lusitanos.

Palavras chaves: Folkmídia, Comunicação Oral, Cultura Popular



1. Introdução

(...) Através dos ex-votos “corações sangram e com o seu sangue vai sendo escrita a história dos sentimentos do povo nordestino, vítima das secas, dos latifúndios, das doenças e da fome”. O ex-voto, na sua “ingênua exageração de milagres” é, na verdade, um veículo da linguagem popular, dos seus sentimentos (...)

Beltrão, Luiz, “Folkcomunicação – Um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias”, EDIPUCRS, Porto Alegre, 2001, p.253.


São muito nítidas as relações culturais entre o nordeste brasileiro e a região costeira do norte-fluminense, compreendendo a faixa atlântica entre as bacias dos rios Itabapoana e o Paraíba do Sul, prolongando-se ao rio das Ostras, onde os costumes são quase idênticos, provando, em tese, coincidências civilizatórias produzidas pela colonização, cujo ideário era a exploração extrativista do pau Brasil, passando, depois, para os ciclos da cana-de- açúcar e do café e as tradicionais atividades pastoris, com ênfase para a pecuária leiteira e de corte.
Em termos de cultura popular, quem abriu este horizonte de entendimentos foi a pernambucana Anna Augusta Rodrigues
2 que, por esses acasos felizes, veio morar na Usina Barcelos, distrito de São João da Barra, no norte fluminense, constituindo-se na primeira pesquisadora da cultura de raiz da região, justamente porque encontrou pelos aceiros muitas coincidências com sua terra natal, que passava pelo jeito do peão de cortar a cana nos canaviais e pelo linguajar dos famosos muxuangos3 da Baixada.
No dizer da professora Diva Marina Suppa Goulart, Presidente da APOE, prefaciando o livro “Rodas, Brincadeiras e Costumes” da pesquisadora, “Anna mostrava-se, nesse reparo de palavras típicas, um Guimarães Rosa-menina”. Após, enfatiza o “Paraíba largo, que passou a ser seu novo horizonte, lembrando-lhe o magnetismo do Capibaribe”. Sobre os aspectos lúdicos, Anna Augusta pode observar identidades comuns envolvidas nas festas populares, (todas tendo como base as festividades do Divino Espírito Santo) Cavalhadas, Folias-de-Reis, Bois Pintadinhos, Caboclinhos (figuras do Maracatu), Jaraguás, Jongos e Manas-Chicas, não faltando pitadas de Mulas-sem-cabeça, Boitatás e o Lobisomem – este um ícone de espanto de diferentes gerações.
No campo da religiosidade, observou a linguagem das rezas e promessas e até o ritmo do cântico (desafinado) das ladainhas contido nas célebres “incelenças” nordestinas. A realidade do ex-voto, como linguagem de comunicação universal, através da qual “(...) as populações mais humildes da zona rural e da periferia das grandes cidades manifestam os seus pensamentos, os seus pedidos, contam as suas histórias e transmitem às várias gerações as notícias e tragédias de sua época” (Severino Alves Lucena Filho, artigo “Do Ex-voto ao Folkmarketing”, publicado no livro “Folkcomunicação: Resistência Cultural na Sociedade Globalizada”, organizado por Sebastião Breguêz, p.55). Este costume ela encontrou, também, em particular, na igreja de Santo Amaro, o padroeiro da Baixada Campista – um lugar que se estende da curva de Donana aos alagados do Farol de São Tomé, incorporando alguns lugarejos sanjoanenses, como o caso de sua querida usina Barcelos.
Beltrão, na epígrafe, referindo-se aos ex-votos, assinala, sem que esta fosse a sua intenção, que o nordeste é o mundo desses acontecimentos, quando eles se universalizam. Lembrando que ele, Beltrão, foi o primeiro a desenvolver pesquisas com essa preocupação na Universidade Católica de Pernambuco, na década de 60, tendo lá estudado o “Ex-voto como veículo jornalístico”, Lucena Filho
4 aclara que “o ex-voto é uma maneira de agradecimento que faz o fiel a algum santo ou divindade pelo restabelecimento de uma doença, uma boa safra, um bom casamento, a compra de uma casa, por deixar de beber, por ter passado nos exames, e até mesmo, pela cura de um animal de estimação5 (...)”. E ai ele (des) regionaliza o costume, explicando:

“Não podemos determinar a origem e a difusão da prática do ex-voto. Sabemos, no entanto, que os povos do antigo Mediterrâneo, há 3 mil anos antes de Cristo, já ofertavam animais, troféus conquistados nas guerras, vestimentas e outras peças aos deuses pelas vitórias nos campos de batalha. No Brasil a prática do ex-voto foi introduzida com a chegada dos colonizadores portugueses como ritual da religião católica, sendo que o processo de aculturação foi vivenciado entre colonizadores europeus católicos e os negros africanos”.


2. Santo Amaro da Baixada


Trazido pelos padres beneditinos durante a colonização, no primeiro quarto do século XVII, é o santo de maior dimensão religiosa da planície e já compôs a decoração de um dos nichos do Mosteiro de São Bento, celebrando, no Brasil, a ritualidade que uniu os dois santos por ocasião do desenvolvimento do catolicismo barroco francês, no qual Amaro (Mauro) ganhara delegação de Bento para abrir um novo mosteiro sob as suas “Regras na Gália”, atual França, no ano de 535.
Embora famoso em todo mundo, Santo Amaro, falecido aos 72 anos, acometido pela peste, em 15 de janeiro de 584, é o mais milagroso de todos os padroeiros da região, embora sua dimensão seja internacional, considerando que seu primeiro milagre aconteceu a partir de uma visão de São Bento - dando conta de que Plácido, seu primo, estava se afogando. Amaro correu e, diante de uma grande concentração de pessoas, caminhou sobre as águas, como Jesus Cristo na Galiléia, e salvou o seu parente da morte.
A “Sala dos Milagres”, no distrito da Baixada, ressalta o ex-voto de seus milhares de fiéis espalhados pela região norte e noroeste fluminense. No recinto estão velas votivas, reproduções de membros do corpo humano em cera e em madeira, fitas de várias cores, muletas, cadeiras de roda, fotografias de comprovação de milagres, cartas, bilhetes, quadros de agradecimento às graças recebidas, muitas flores, dísticos entalhados em madeira divulgando os milagres e notícias publicadas em jornais. Tudo, enfim, que mostra o agradecimento ao santo milagroso, o único a conceder todas as graças, a ponto de causar ciumeiras em outras paróquias do município, inclusive na matriz dedicada ao Santíssimo Salvador
5, oficialmente o padroeiro da cidade, cuja festa acontece em 6 de agosto.
Os moradores católicos, sempre por ocasião da festa, participam de todas as celebrações e contribuem para a confecção dos andores e altares, roupas e utensílios para a cavalhada, além da recepção aos romeiros – ou “santamareiros” – o que sempre acontece às primeiras horas do dia 15, antes da alvorada com fogos e o desfile da Banda de Música pelas ruas e vielas do distrito acordando a população para as festanças.
A escritora Delma Pessanha Neves (“Baixada Campista...”, Damadá, Itaperuna, 1989) conta uma história bem interessante a respeito de Santo Amaro e a forma com que o distrito surgiu em torno da construção da primeira capela, em 1735. Ela cita:

“Os antigos da cidade contam que a primeira capela do povoado foi construída por desejo de Santo Amaro. Segundo eles, a imagem do santo estava na igreja do Mosteiro, localizada no povoado de São Bento. Conta a lenda que, um dia, ela desapareceu do altar. Após muitas buscas, foi localizada num montículo de terra, onde depois foi erguida a capela em homenagem ao santo. Os padres retornaram com a imagem para São Bento, mas outros desaparecimentos ocorreram e em todas as vezes a imagem foi localizada no mesmo lugar. Em virtude desse fato, foi construída a capela para abrigar a imagem de Santo Amaro”.

Todavia, os pesquisadores Avelino Ferreira e a Viviane Terra
6 (“Santo Amaro – A história do santo, da igreja, da festa, da cavalhada e do distrito”, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Campos dos Goytacazes, 2002), afirmam, ampliando as contradições históricas, que no “(...) século XVIII, mais precisamente em 1733, os beneditinos ergueram uma capela em homenagem a Santo Amaro no povoado, atendendo pedidos dos devotos (...)”. E prosseguem:

“(...) Em 1739, a capela foi reerguida. Em 1795, uma nova capela foi construída no mesmo local, segundo dados da Empresa Brasileira de Turismo. E entre 1854 a 1857 foi erguida a igreja atual, sem as torres. Mais tarde, Dom Bonifácio (...) mandou erguer uma torre e em 1945 a igreja foi reformada e ganhou mais uma torre”.

Outras informações sobre a igreja são acrescentadas (Avelino e Viviane), dando conta de uma outra reforma do templo:

“Em 1964, o velho altar, que estava em ruínas, foi substituído por um novo. O altar foi produto de uma campanha deflagrada pelo devoto e natural do distrito, o escritor Waldir Pinto Carvalho
7, que usou seu programa na Rádio Jornal Fluminense para arrecadar fundos e adquirir as peças. Ele próprio foi encarregado de contratar um empreiteiro, o que fez em abril de 1963, firmando contrato com Otílio Castro. O altar foi contratado por CR$ 250 mil cruzeiros. A planta foi elaborada pelo renomado artista Francisco Arueira, que (assim) respeitou as “exigências históricas” da arquitetura. Todo trabalho foi aprovado pelos beneditinos (...).

Outra contradição diz respeito à imagem de Santo Amaro, não havendo nenhum documento que prove ser a atual a original que andou se mudando do mosteiro de São Bento para os arredores da região, onde hoje se localiza o distrito de Santo Amaro. Delma (apud assentamentos do livro “Construtores e Artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro”) salienta que a “imagem, ainda hoje na igreja, é de 1790”. E informa: “É uma das mais antigas que a Ordem recebeu. Ela permaneceu no Rio até 1789, quando foi transferida para o arraial de Santo Amaro”.
A realidade, todavia, mostra que, independentemente do santo (imagem) que se encontra no altar, muito mais importantes são a espiritualidade e as referências culturais do padroeiro da Baixada Campista que, apesar dos avanços das novas tecnologias de comunicação e da configuração do ciberespaço, descrita por Pierre Lévy, redimensiona-se e a religiosa vem aumentando de ano para ano demonstrando, no dizer do filósofo Emmanuel Carneiro Leão, emérito professor da UFRJ: “Nesse sentido é a fé que sacraliza o mito”.

3. As festas do padroeiro

A mais antiga narrativa de que se tem notícia sobre as festas de Santo Amaro, este ano completando 272 anos, data que marca seu início em 1733, 102 anos antes da elevação da antiga Vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes à categoria de cidade, o que ocorreu em 28 de março de 1835. Foi publicada no “Monitor Campista”, de janeiro de 1865, ainda nos tempos do Brasil Império, a nota seguinte, segundo consta da monografia de conclusão de curso (turma de dezembro/2004) da estudante (hoje jornalista) Andresa Alcoforado:

“Os festeiros do glorioso Santo Amaro, Sebastião Ferreira de Souza, José Francisco Barbosa e Belarmino da Rocha fazem ver ao respeitável público e aos devotos do glorioso Santo Amaro que no dia 14 e 15 corrente, celebrarão a festa do mesmo santo, na capela de Santo Amaro. Havendo na véspera cavalhada, à (sic) uma hora da tarde, e à noite sermão e fogos de artifícios, e no dia 15 missa cantada e sermão. A festa de sábado é feito toda pelo sr. José Francisco Barbosa”.

Os festeiros, da mesma forma que os descritos no século XIX, são os responsáveis pelo levantamento dos recursos necessários para a realização das festas. Os gastos, de um modo geral, são com roupas, bebidas e locais para receber os visitantes, além da decoração do altar e andores para a procissão e pagamento da banda de música. Na classificação geral dos festeiros constam: o principal, o do mastro, dos fogos e da cavalhada, existindo, também, a figura do procurador, que é escolhido entre eles para ajudar na arrecadação de donativos. Todos os anos, o festeiro é indicado pelo seu antecessor e, entre outras atividades, tem que organizar a lista de juízes e colaboradores.
Quem comenta este assunto é a festeira Maria da Conceição Ramos, 79 anos, cuja vida se confunde com a da festa nos últimos 50 anos. Há meio século ela se dedica às costuras das roupas dos cavaleiros da cavalhada. Azul para os cristãos e vermelho para os mouros. Hoje, com a vista cansada, apenas orienta outras costureiras no serviço, mas, no fim, sempre dá sua ajuda nos últimos detalhes. Da varanda de seu rancho tem uma visão privilegiada de todo cenário da festa, como o campo do Pinheiro Machado Futebol Clube, lugar da representação da cavalhada, a igreja pintada de branco e a praça onde os comerciantes instalam suas barracas para a venda de iguarias.
Ultimamente as coisas não têm sido boas e as dificuldades são cada vez mais crescentes. Ela confessa que teve que se comprometer com as lojas da cidade. “Fui a Campos comprar os tecidos para as roupas. O dinheiro que nos ajudou foi o da própria igreja, que faz uma série de atividades para arrecadar fundos. Pela primeira vez vamos ter que aproveitar as roupas da cavalhada no próximo ano”.
O padre Gilberto Araújo Alvim, 28 anos, foi o responsável, até 2005, pela realização dos eventos religiosos em 31 paróquias da Baixada Campista. Ele informou, na ocasião, que dentre todas as igrejas a que mais atrai devotos é a de Santo Amaro. “A festa tornou-se tão importante que é feriado em Campos
8”, lembra com brilho nos olhos claros e significativos. Ele tem apenas cinco anos de ordenação e já adquiriu grande responsabilidade em todas as comunidades, nas quais atrai olhares mais insinuantes das moçoilas apaixonadas.
É um ano inteiro de preparação até chegar o esperado dia 15 de janeiro, aniversário do padroeiro. São várias as etapas da festa: o novenário, levantamento do mastro da bandeira, celebração de missas e realização de casamentos e batizados, a tradicional procissão percorrendo as ruas do distrito, ladainha cantada por um punhado de beatas e a famosa cavalhada
9, costume folclórico que vem desafiando o tempo e se mantendo intacto em sua definição. Há inclusão de outras atrações, tais como o leilão de prendas, pau-de-sebo, danças folclóricas, com destaque para o lanceiro, existente também nas festas de São Sebastião e São Martinho, além de shows patrocinados pela municipalidade, culminando (sempre) com a tradicional queima dos fogos de artifícios.
Neste período (Delma, p.14) todo o povoado se prepara para a festa. As casas são pintadas. Os moradores fazem roupas novas ou as chamadas roupas da festa. A igreja, o coreto e os postes são pintados de branco. As árvores são podadas e a praça principal fica completamente iluminada. Nas noites que antecedem à festa, há torneio de futebol de salão entre equipes das localidades mais próximas e as barraquinhas permanecem armadas em redor da praça vendendo de tudo: algodão doce, bolo de milho, bolinho de arroz, salgados com carne e aipim, sopas suculentas como mocotó e caldo verde, carne de sol, cachorro quente, caldo-de-cana, bebidas quentes e geladas. Os ambulantes oferecem pipocas, amendoins, bijuterias, bolas de assoprar, havendo, ainda, artigos religiosos e a oferta de diversões para as crianças num bem montado parque, com roda gigante e tudo mais.
Outra coincidência com os costumes nordestinos é a presença de grupos de forró, ou se apresentando no palanque oficial ou mesmo realizando bailes nos salões, fato que se verifica, também, na região de Barra do Açu, litoral de São João da Barra, onde existem cinco desses salões desenvolvendo esta cultura de características nordestinas.
Hoje há as facilidades para quem quiser se deslocar a Santo Amaro, porque a rodovia do Açúcar está devidamente reformada, ganhando a construção de acostamentos. Mas nem sempre foi assim. Festa mais antiga da Baixada, e sempre muito concorrida, chegou a possuir uma Casa da Festa construída pelo mosteiro para abrigar os devotos - romeiros que chegavam em cambonas-de-bois, charretes, carroças puxadas por mulas ou montados em lombo de burro.
Em 1873, com a construção da Estrada de Ferro Campos-São Sebastião, os romeiros passaram a viajar de trem até o citado distrito e de lá se dirigiam, através de outras formas de transportes, para Santo Amaro. Mas havia carreiros que cobravam até 2 mil réis por uma passagem em suas cambonas. O jornal “Monitor Campista” anunciava a espera dos romeiros na descida da “Maria Fumaça” e havia até mesmo um anúncio: “O trem que parte da Estação de Campos às 5 horas e 40 minutos da tarde de hoje, dia 13.01.1874, sábado, conduzirá as pessoas que quiserem pernoitar em Mineiro, em cujo lugar encontrarão cômodos ao preço de 1 mil réis”.
Esta alternativa (segundo narram Avelino e Viviane) para os fiéis durou até 1910, quando foi inaugurada a extensão da linha férrea até o povoado. A partir de então, os devotos podiam ir e voltar no mesmo dia, desfrutando o conforto do trem. Uma caravana de romeiros de Quissamã até hoje é recebida com festa pelos festeiros de Santo Amaro. Só que agora viajam pela Rodovia da Restinga, uma das mais bonitas da região, ligando o centro da cidade quissamaense ao balneário de Barra do Furado, de ônibus especial, ficando longe o tempo em que enfrentavam o percurso em estrada de chão batido, plena de poeira e, na maioria das vezes, em cima de carroças e, mais tarde, em caminhões dirigidos por empregados das usinas.

4. Narrativa dos milagres

Praticamente toda a Baixada Campista (Avelino e Viviane) ou Baixada da Égua - assim ainda conhecida por moradores mais antigos, por causa, justamente, da criação de eqüinos, fato econômico existente na região desde a colonização - é devota de Santo Amaro, independentemente de serem outros os padroeiros dos distritos e vilarejos mais próximos, como o caso de Baixa Grande (Nossa Senhora das Graças); Saturnino Braga (Sant’Ana) e o próprio Farol de São Tomé, cujos moradores rendem homenagens à Nossa Senhora da Rosa Mística. Os pesquisadores acrescentam:

“(...) Grande parte dos campistas tem uma devoção ao santo e recorre a ela nas horas difíceis, principalmente quando o problema é a doença. Milhares de pessoas atribuem a Santo Amaro o fim dos males que as afligem. Muitos são devotos de outros santos mas, no fundo, têm Santo Amaro como aquele que é capaz de resolver seus problemas insolúveis”.

Anualmente são inúmeros os devotos que caminham durante horas, de seus locais de origem até a igreja. Lá, na chamada “Sala dos Milagres” ou de ex-votos, agradecem as graças recebidas e depositam suas lembranças simbolizando a cura de determinados males. Centenas desses romeiros saem do centro da cidade de Campos dos Goytacazes e caminham os 40 quilômetros em 9 a 10 horas, geralmente à tarde/noite do dia 14, de modo que possam chegar no distrito a tempo de participar do desfile da alvorada, o que acontece por volta das 5 horas da madrugada (nos últimos anos), ainda escura por causa do horário de verão, ocasião em que os relógios são adiantados em uma hora, objetivando a economia de energia elétrica.
Muitos chegam com os pés feridos e cansados, sapatos ou sandálias nas mãos. Pedro Celestino da Silva, do parque São Matheus, 45 anos, conseguiu completar o sacrifício para pagar a promessa feita pela cura de sua filha Matilde, 6 anos, que sofria de uma doença e estava desenganada pelos médicos. “Valeu a pena tudo isso. Santo Amaro concedeu esta graça e agora é justo que pague pelo prometido”.
Avelino e Viviane colheram o depoimento do professor Gustavo Soffiati, Mestre em Cognição e Linguagem pela UENF, também contemplado por uma graça não revelada, como de Cristina Ferreira Pereira, 26 anos, mãe de uma prole de três filhos. Uma delas, de nome Taís, com um ano sofria de pneumonia e foi igualmente desenganada pelos médicos. “Santo Amaro a curou e agora ela está com seis anos e é uma menina sadia”, confessou, após ter caminhado mais de 10 horas para pagar a promessa.
Conceição Maria de Almeida, da localidade de Água Preta, também pagou sua promessa caminhando de Sabonete a Santo Amaro, passando pelo Mosteiro de São Bento. Depois da caminhada foi à “Sala dos Milagres” e colocou miniaturas de bois e vacas. É que ela fez promessa para o santo curar seus animais acometidos por uma doença estranha. “Os animais estavam morrendo e não havia remédio para dar jeito. Apelei para a promessa e, numa semana, os bichos voltaram a se alimentar normalmente e se mostraram curados pelo poder de Santo Amaro”.
Também Néio Augusto de Almeida caminhou de sua residência no Parque Santo Amaro até o distrito, para pagar por uma graça recebida que ele, por questões de foro íntimo, não quis revelar: “Sai por volta da meia noite e num pique só cheguei por volta das 6 horas da manhã, mas em tempo, ainda, de assistir à primeira missa do dia da festa”.
Outro testemunho, citado por Avelino e Viviane (op.cit.) é o de José Carlos Gonçalves, 54 anos. Ele demorou cerca de 8 horas e 45 minutos para chegar ao povoado. Confessa que, chegando mais cedo, por volta das 2 horas da madrugada, deu tempo para um cochilo sob as árvores da pracinha, mas logo acordou para assistir à missa e entregar na “Sala dos Milagres” seu reconhecimento pela graça. “Fiz a promessa quando meu filho doente tinha três anos de idade. Hoje ele tem 29 e é pai de meus netos, mas continuo agradecendo e demonstrando minha fidelidade”.
São inúmeros os depoimentos de pessoas que fazem questão de narrar sobre as graças concedidas pelo santo. Algumas preferem o anonimato. O importante é que a “Sala dos Ex-Votos” está lotada de lembranças. Além das colocadas, estrategicamente, nas paredes, existem caixas e mais caixas de outras lembranças que o padre atual está arrumando, mas com a idéia de que precisa de um espaço maior para expor todos os ex-votos.
Segundo dados do IBGE, hoje Santo Amaro, dotado de uma superfície de 277 quilômetros quadrados, tem uma população em torno de 7.500 moradores. Criado pela Deliberação de 22 de julho de 1890, é o terceiro distrito de Campos e abrange a maior parte da costa do município, que é a praia do Farol de São Tomé, cujo território pertence a Santo Amaro e se estende à divisa sanjoanense de Mussurepe.
Santo Amaro é, ainda, padroeiro de outras localidades, dentre elas, o Veiga, Donana, Guandu, Três Vendas, Usina do Queimado, Cerejeira, Vila Nova (no norte de Campos), Xexé (praia vizinha ao Farol de São Tomé e caminho para a Barra do Açu, tendo que atravessar a Ponte de Maria Rosa) e Grussaí, região praiana de São João da Barra, onde a igreja é uma réplica da construída no distrito.

5. As cavalhadas

Seria uma iniqüidade falar das festas ao padroeiro da Baixada sem citar a atração da representação simbólica da cavalhada, remontando as lutas entre Mouros
10 e Cristãos. Antes era a guerra mas, com o passar dos tempos, tornou-se um espetáculo, uma espécie de show de montaria proporcionado pelos peões de todas as idades.
Foi representada pela primeira vez, em Campos, em 7 de outubro de 1730, em homenagem a D. Mimoso, o Ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro, quando de sua visita ao Solar do Colégio – construção do século XVII e que hoje abriga o Arquivo Público Municipal -, à época propriedade dos jesuítas. O costume salienta que na simulação da luta, os Cristãos conseguem conquistar os Mouros e tudo termina numa ampla confraternização entre os azuis e os vermelhos. Mas em Santo Amaro o espetáculo vem sendo apresentado desde 1760, atraindo sempre milhares de pessoas da região e de outros centros.
A cavalhada é, portanto, um folguedo introduzido no Brasil pelos lusitanos no século XVIII e faz parte da tradição cultural de muitos municípios brasileiros, principalmente nas regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, onde o costume é mantido em sua essencialidade e, curiosamente, da mesma forma e com os mesmos significados culturais: A representação sintetiza os soldados cristãos do Imperador Carlos Magno na conquista dos Mouros de Constantinopla e que foram batizados, depois de vencidos na batalha, pelo próprio imperador. Como na cavalhada de Santo Amaro são 12 os cavaleiros de cada lado, as pessoas se reportam às histórias e lendas de Carlos Magno e aos 12 Pares de França.
Para ao escritor Waldir Pinto Carvalho, no entanto, a cavalhada é a representação de uma luta que não chegou a acontecer entre Cristãos do exército de Luiz IX, Rei de França e os Mouros da região da Tunísia. Eis a citação:

“Luiz comandou a última cruzada contra os povos pagãos. Cruzada que, aliás, foi um fracasso e já não tinha nada da violência praticada nas anteriores. Como os Mouros eram grandes cavaleiros, a guarda de honra do Rei Luiz entrou numa disputa com a guarda de honra do Sheik árabe. Em vez de uma luta de morte entre eles, devido ao respeito que nutriam uns pelos outros, decidiram participar de um desafio. Colocaram uma espécie de trave na arena e animais, provavelmente porcos esticados por cordas. Os cavaleiros deveriam, em disparada, cortar a cabeça do animal de um só lance de espada. Hoje os animais foram substituídos por argolinhas”.

O cavaleiro Francisco Manoel da Costa, 77 anos de idade, completou mais de 60 cavalhadas em toda sua vida. Para ele os peões ensaiam e aperfeiçoam a destreza com os animais durante todo ano. Aprendem, com um instrutor – o atual é Joel Rita da Costa, filho de Francisco e ocupante do posto de capitão, tal qual o Antonio de Zinho, da localidade de Caboio – todos os movimentos necessários ao belo espetáculo. Para o velho Chico, a representação da cavalhada se confunde com a fé de Santo Amaro. “Não poderia entender as festas dedicadas ao digno padroeiro da baixada sem a representação dos cavaleiros no meio da arena cercada de gente por todos os lados. É a fé que se completa no coração de cada santamareiro, graças a Deus”.

6. Bibliografia

BELTRÃO, Luiz, “Folkcomunicação: Teoria e Metodologia”, Universidade Metodista de São Paulo – Cátedra Unesco/Umesp, SP, 2004.

BREGUÊZ,Sebastião (Org), “Folkcomunicação: Resistência Cultural na Sociedade Globalizada”, Intercom, São Paulo, 2004.

RODRIGUES, Anna Augusta, “Rodas, Brincadeiras e Costumes”. Plurarte/INL, Rio de Janeiro.1984.

BENJAMIN, Roberto, “Folkcomunicação na Sociedade Contemporânea”, Comissão Gaúcha de Folclore, Porto Alegre, 2004.

__________________, “Folkcomunicação no Contexto de Massa”, Editora UFRN, Rio Grande do Norte, 2001.

FEYDIT, Julio, “Subsídios para a história dos Campos dos Goytacazes”, Gráfica Luartson, São João da Barra, 2004.

LAMEGO, Alberto Ribeiro, “O Homem e o Brejo”, Editora Lidador, Rio de Janeiro, 1974.

FERREIRA, Avelino; TERRA, Viviane, “Santo Amaro, a história do santo, da igreja, da festa, da cavalhada e do distrito”. Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Campos dos Goytacazes, 2001.

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SOARES, Orávio de Campos, “Muata Calombo – Consciência e Destruição”, Editora Fafic, Campos dos Goytacazes, 2004.

LIMA, Lana Lage, “Rebeldia Negra e Abolicionismo”, Editora Achimé, Rio de Janeiro, 1981.

CASCUDO, Luiz da Câmara, “Mouros, Franceses e Judeus – Três presenças no Brasil”, Editora Letras e Artes, Rio de Janeiro, 1967.

1 Mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ); professor e coordenador do Núcleo de Iniciação à Pesquisa Científica em Comunicação, do Centro Universitário Fluminense – UNIFLU – (Faculdade de Filosofia de Campos – Fafic).
2 Autora do livro “Rodas, Brincadeiras e Costumes”, Instituto Nacional do Livro (Fundação Nacional Pró-Memória), Brasília, 1984. Na introdução da obra ela cita: (...) Meu trabalho abrange duas fontes – Pernambuco e, com marcada predominância, o norte do Estado do Rio de Janeiro, nos municípios de Campos e São João da Barra (...)”.
3 Denominação da população do litoral de Campos e São da Barra, diferenciando-a dos habitantes das montanhas da Serra do Mar, denominados mocorongos.
4 Professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba e coordenador da III e VII Conferência Brasileira de Folkcomunicação.
5 É o tema do filme “O Pagador de Promessas”, a partir do texto de Dias Gomes. O personagem Zé do Burro faz uma promessa a Santa Bárbara para seu burro se curar. Põe a cruz, tão pesada como a de Jesus Cristo, às costas e vai para Salvador e lá foi morto pelo sincretismo religioso. O padre não deixou ele colocar o ex-voto no altar, alegando que a promessa fora feita a Iansã.
5 Segundo o historiador Alberto Frederico de Moraes Lamego, em “Terra Goitacá”, o antigo padroeiro da cidade era São Francisco, destronado para que o donatário Salvador Correa de Sá e Benevides fosse homenageado. Avelino e Viviane, em suas pesquisas, no entanto, constataram que a data de 6 de agosto refere-se à transfiguração de Jesus Cristo, que apareceu iluminado, pairando sobre a cabeça de três discípulos. Para eles, Salvador Correa de Sá e Benevides, como religioso, decidiu homenagear Jesus Cristo e a da de sua transfiguração, àquela época uma das mais importante4s no calendário do catolicismo.
6 Avelino é jornalista e professor de Filosofia e Viviane é pedagoga prestando seus serviços na secretaria Municipal de Educação do município de Campos dos Goytacazes.
7 Membro da Academia Campista de Letras e autor de vários livros sobre a história de Campos, sendo os mais importantes os da série “Gente que é nome de rua”.
8 A Associação Comercial e Industrial de Campos e a Câmara dos Dirigentes Lojistas colocam-se contra o feriado do dia de Santo Amaro. Seus líderes argumentam que o feriado deveria ocorrer somente na Baixada Campista.
9 Há registros no Arquivo Público Municipal dando conta de que a cavalhada já existia em 1730 e fazia parte dos festejos de Santo Ignácio de Loyola, na Fazenda do Colégio (sede hoje do Arquivo). situado na Estrada de Paraíso de Tocos
10 Povos que habitavam a região da Mauritânia; mas, para o cristão, “mouro” era designativo das pessoas que não tinham a fé cristã.

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